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10 de junho de 2015

A formação de Botucatu




foto: José Reynaldo (aqui)

Tese de João Piza conta um pouco da nossa história:

"O Estado de São Paulo centraliza, hoje, a maior e mais complexa rede urbana do hemisfério sul, apresentando uma rica e diversificada gama de formas de urbanização. Os principais estudos sobre a constituição e o desenvolvimento do interior do Estado privilegiaram aspectos dominantes como o ciclo do café, os imigrantes, as ferrovias e, mais recentemente, a industrialização das cidades médias, relegando para segundo plano a heterogeneidade que ocorre na forma de ocupação de um território, mesmo dentro de uma pequena região. O objetivo do estudo no link abaixo foi apresentar as formas de desenvolvimento urbano que ocorreram nas áreas que ficaram à margem do ciclo econômico cafeeiro na região de Botucatu. Nestas áreas, ocorreram formas diferentes de urbanização, raramente estudadas, fruto de um desenvolvimento local lento e influenciado por fatores advindos da vizinhança economicamente dinâmica. Como conclusão e discussão foram apresentadas as formas de urbanização resultantes deste processo e os desafios no planejamento de longo prazo nas áreas estudadas."

6 de setembro de 2011

A chegada dos Belgas em Botucatu

Convido-os a ler a transcrição na íntegra dos artigos do Sr Tristan Dierckx ,sobre a chegada dos Belgas a Botucatu em 1962.

O conjunto de artigos já escritos por esse professor sobre esse tema poderá ser encontrado aqui: http://intercambio.spaceblog.com.br/r37203/Monte-Alegre/

"Foi na segunda quinzena de setembro de 1961 que apareceram as primeiras notícias a respeito da chegada dos belgas em Botucatu. Havia poucas informações e certa expectativa.

Comentava-se que várias famílias, ninguém sabia quantas ao certo, viriam residir em Botucatu. Muita gente se perguntava quem eram essas pessoas. Como é que eles eram? E também, para muitos, onde é que ficava essa Bélgica de que muitos nunca haviam ouvido falar?

É bem verdade que nosso pequeno país, encravado entre a França, a Holanda e a Alemanha nunca desempenhara um papel na história que pudesse fazer com que fosse lembrado em terras distantes.

Na cidade, ninguém sabia ainda quantos éramos. Comentava-se que oitenta casas estavam sendo construídas na Fazenda Monte Alegre. Não havia nada de preciso. A única coisa que se sabia com certeza é que chegariam famílias belgas na cidade.

Emilio Peduti, prefeito municipal naquele momento, e sua assessoria, aguardavam notícias que podiam chegar a qualquer momento. Os belgas, na sua maioria chefes de família, deviam estar ansiosos e possivelmente tinham certa pressa em chegar à nova terra. Haviam chegado ao porto de Santos e foram encaminhados para São Paulo, no Departamento de Imigração. Neste imóvel antigo existiam acomodações onde os imigrantes podiam permanecer até que fossem definidas as questões legais. Para quem gostaria de visitá-lo, este imóvel continua lá, hoje transformado em
Museu do Imigrante.
Podemos imaginar quantos sonhos e projetos carregavam neste momento. Todos tinham estado no Congo Belga. Todos tinham perdido praticamente tudo. Muitos tinham filhos africanos, nascidos lá, e que ainda tinham na memória o
 swahili e o Lingala que ainda usavam normalmente até alguns meses antes. Haviam escapado por pouco da morte e todos depositavam suas esperanças nesta terra.

Todos haviam sido obrigados a deixar a colônia africana e retornar para a Bélgica. Foi um momento angustiante, o dessas milhares de pessoas voltando para o país de origem, desprovidos de tudo, desempregados.

Eu tinha nove anos e me lembro ainda da chegada em Bruxelas. Milhares de pessoas superlotavam o aeroporto à espera de familiares. Um vento frio nos pegava na saída do avião, como para nos lembrar que nunca mais veríamos a África.


...

Janeiro de 1962 – Fazia três horas que o ronco do motor nos enchia os ouvidos. Quase todos dormiam naquele momento. Eu, pela janela, vi as sombras da serra que se destacavam à luz da lua. Ouvia as trocas de marcha que ajudavam o ônibus a subir a serra interminável.

Quase todos dormiam naquele momento. Adultos cansados e crianças nos colos. Todos mergulhados em sonhos de Terra Prometida, da grande aventura que os tinha trazido a este lugar distante. O rosto colado na janela, vi as luzes de uma cidade, estrelas alinhadas no horizonte, velando o sono de homens desconhecidos.

Logo chegamos à cidade desconhecida e percorremos a rua deserta borrada de amarelo. Subimos a Rua Amando de Barros para atravessar a cidade.

A história da chegada dos belgas em Botucatu poderia começar assim.

Para mim, como um romance de aventuras (eu tinha dez anos).

E, de fato, emigrantes belgas vieram se instalar no município. Instalaram-se numa fazenda que ainda hoje se chama “Monte Alegre”.

Uma cooperativa belgo-brasileira nasceu ali. Uma história de sonhos abortados. De felicidade também. Mas uma história que deixou marcas na cidade.

A Bélgica não conhecia o Brasil. Para ela, não passava de um país longínquo, do outro lado do mundo. Portanto, não era fácil tomar providências, sem conhecer nada do país, visando instalar centenas de compatriotas e, mais ainda, fazer com que uma colônia belga pudesse prosperar ali.

O governo belga devia encontrar alguém que conhecesse o país e, através dele, adquirir uma terra que pudesse servir ao projeto de instalar todas essas famílias. E esta pessoa, ele acabou encontrando na pessoa de Monsieur Hoogenboom, holandês que morava no Brasil e que dirigia uma experiência agrícola na região de Campinas (estado de São Paulo) cujo nome lembrava o país de origem: Hollambra 1.

O acordo entre o governo belga e Monsieur Hoogenboom previa que este devia encontrar uma terra suficientemente grande e podendo servir para instalar uma cooperativa agrícola destinada aos colonos belgas que tinham sido obrigados a deixar o Congo Belga.

Mas as coisas não ocorreram exatamente como haviam sido previstas. Encarregado pelo governo belga de encontrar uma terra, ele de fato a encontrou.

Mas essa história nunca foi bem contada. De fato, ele acabou escolhendo uma terra que se encontrava em Botucatu (estado de São Paulo), uma terra cansada, imprópria à agricultura. Na mesma época ele escolheu outra gleba destinada à expansão de Hollambra 1 que, mais tarde se transformará em Hollambra 2.

 Acontece que esta última era de qualidade infinitamente superior. Esta era uma boa terra. Além disso, dizem, ele teria pagado um preço muito superior ao que valia esta terra. Ele foi também acusado de ter tido a intenção de transformar a cooperativa belga em uma extensão da cooperativa holandesa. Provavelmente não saberemos nunca, pois não existem provas de tais afirmações.

O que podemos dizer com certeza, é que a gleba comprada para os holandeses em Paranapanema era de fato bem melhor que aquela que havia sido comprada para os belgas em Botucatu.

Esta gleba possuía 9.704 hectares e era conhecida como Fazenda Monte Alegre. Outrora ela havia sido muito importante, tendo possuído, dizem, até um milhão de pés de café. Ela foi comprada em 1961 do seu último proprietário brasileiro Senhor José Augusto Rodrigues, do qual conheço o neto, excelen
te colecionador de fonógrafos, rádios antigos, entre outros.

A gleba foi dividida em parcelas destinadas às famílias que chegavam da Bélgica. No começo, cada família recebeu 50 hectares. Uma dessas famílias foi a minha.
Os emigrantes belgas tiveram de enfrentar grandes dificuldades. Eles se encontravam num país do qual não conheciam nem a língua nem os costumes. Além disso, encontravam-se a aproximadamente a vinte quilômetros da cidade de Botucatu. Foi preciso pensar na educação das crianças. Por isso, instalou-se uma escola para os pequenos."

Tristan Dierckx

10 de novembro de 2010

Cerâmica dos Índios Caingangues foi encontrada na Fazenda do Lageado

Kaingang de Ivaí (RS). Foto: Vilaine Capellari, 1994.



Descoberta ocorrida no início de setembro de 2010 pelos pesquisadores vinculados ao Projeto Arqueologia no Câmpus é a primeira evidência material da presença dessa nação indígena em Botucatu.

“Muitas pessoas tratam as informações sobre a presença de índios na região de Botucatu como algo distante da sua realidade, exótico ou curioso. Mas os índios são seus antepassados também. Se uma pessoa dessa região não tem todos os avós, maternos e paternos vindos da Europa, se apenas um deles é brasileiro, é certo que a pessoa tem sangue indígena. Por mais que esses índios tenham sido exterminados fisicamente, eles não evaporaram. Os genes desses povos estão presentes em todos nós e as pessoas não tem essa noção. É o passado de todas as pessoas”.Astolfo Araújo (Museu de Arqueologia da USP)

Conheça um pouco sobre os Caingangues (trechos de um texto de Celso Prado):

O OCASO DE UM POVO GUERREIRO

Nos últimos anos do século XIX já não havia índios selvagens no Planalto Ocidental Paulista senão os Caingangues, contra quem as lutas tornaram-se extremamente violentas e as dadas mais sangrentas, em disputa de vasto território de 35 mil quilômetros quadrados.A dinâmica expansionista do capital não admitia oposição aos avanços da nova ordem, ou seja, o empreendimento econômico, sistematizado nas ocupações e incorporações de terras indígenas restantes a favor dos fazendeiros (café, algodão, pecuária e povoações), das empresas (ferroviária, navegação e rodoviária)e dos núcleos habitacionais. A tomada de terras Caingangues representava, portanto, a ampliação e consolidação deste espaço sócio mercantil necessário.
Em meados do mesmo século XIX outros grupos indígenas já haviam sido exterminados pelos entradistas, a serviço de José Theodoro de Souza, e dos primeiros desbravadores, não tardando Campos Novos Paulista tornar-se a principal base de apoio logístico para a conquista do Vale Paranapanema em direção ao rio Paraná.
Concluída a etapa Vale Paranapanema e opondo-se os Caingangues ao avanço das frentes de ocupação, também de Campos Novos partiram os primeiros caçadores e assassinos de índios, rumo ao Vale do Peixe, para tomar-lhes as terras e entregá-las aos empreendedores e grileiros.

A despeito da Lei da Terra (1850), o avanço branco contava com o beneplácito do governo paulista e sua flexibilidade fundamentada em ordens régias, tolerantes e liberais, a exemplo da Legalização da Guerra ao Índio e sua Escravização, pela Carta Régia de 05 de novembro de 1808, dirigida ao Governo da Província de São Paulo: ”Que não há meio algum de civilizar povos bárbaros, senão ligando-os a uma escola severa, que por alguns anos os force a deixar e esquecer-se da sua natural rudeza, e lhes faça conhecer os bens da sociedade (...). Que todo miliciano, ou qualquer morador, que segurar alguns destes índios, poderá considerá-los por quinze anos como prisioneiros de guerra, destinando-os aos serviços que mais lhes convier”.
Considerados bárbaros e rebeldes aos Aldeamentos, o recontro entre brancos e Caingangues foi mesmo bastante complicado, sempre o mais violento possível, com investidas dos pioneiros e o revide dos índios que, às vezes, atacavam antes, quando então elegidas as localidades de Campos Novos e Espírito Santo de Fortaleza, depois Bauru, por sentinelas avançadas para sediar e organizar grupos armados dirigidos contra aldeias dos Coroados. 
Houve um freamento nos ataques aos índios, desde o massacre a uma aldeia Caingangue promovido por Felicíssimo Antônio de Souza Pereira, em 1858, na região de Bauru, com repercussão na imprensa e meio político de toda província e Corte Imperial. Contudo, a despeito da veemente censura e indignação nacional, se fez prevalecer os interesses dos desbravadores interessados em proteger “localidades ocupadas por gente civilizada, laboriosa e útil ao país”, fazendo o governo da Província de São Paulo “autorizar a formação de bandeiras com todo aparato característico das similares do período colonial e com recomendações adicionais da Diretoria Geral dos Índios, sugerindo a retirada dos naturais... ‘para lugares longínquos (...) além do Paraná e neste caso destruindo os seus alojamentos para que não possam regressar a eles’ (...)“ .
No ano de 1862 grupos Caingangues são vistos nas regiões do rio Pardo, Alambari e Batalha [Bauru], e a eles dando combate o sertanista José Theodoro de Souza na região do rio Batalha. 
A rotina de conquistas e avanços em território Caingangue recomeçou em 1878, com a organização dos invasores contratando os bugreiros, ou a se valer de certos fazendeiros especializados também como bugreiros iniciados nas dadas, ou jagunços premiados por feitos assassinos (fugitivos da justiça) a favor de patrões, uns tidos por heróis da Guerra do Paraguai, portanto homens experimentados em batalhas, outros vindo dos remanescentes pioneiros outrora chefes de bandos, em Minas Gerais ou Rio de Janeiro, todos igualmente provados em atacar e matar oponentes sem lhes dar oportunidades de defesas.
Na década de 1880 recrudesce o massacre contra a população Caingangue, com avanço colonizador e das frentes de ocupação territorial, quando o Governo da Província decide abrir caminhos por entre terras indígenas; como podiam, os Caingangues revidam ataques aos brancos, numa luta bastante desigual e que os tornava mais enfraquecidos, carentes de gentes e armamentos.
Já ao final da década e do século XIX, 1898, poucos Caingangues ainda viviam nas matas, acossados pelas frentes de expansão que já conquistara grandes partes dos seus territórios diminuindo-lhes espaços para caças, pescas e coletas, além da impossibilidade de roçados quase sempre destruídos pelos atacantes. Estava em curso, através das dadas, um dos maiores etnocídios da história paulista.
O jornalista Mauricio Castelo Branco entende que “A omissão do Estado e da imprensa na época foi fatal para os Kaingang. Desde a Proclamação da República, a Igreja estava afastada do processo de pacificação. O governo, por sua vez, não havia criado mecanismos próprios para substituí-la nesta missão. E o pior: fez vistas grossas ao genocídio. Os principais jornais paulistas limitavam-se a noticiar os poucos relatos que chegavam à redação sobre ataques contra os Kaingang, ainda assim de forma resumida e evasiva. A imprensa era pautada pela visão hegemônica e eurocentrista de progresso - a base da justificativa para a carnificina”. 

(Aguarde, em breve mais informações sobre os Índios Caingangues)