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7 de maio de 2017

Mãos...

foto reprodução

"Mãos que atuam e fazem o bem,

mãos que trabalham e não se detêm,

mãos amorosas que os fracos amparam,

mãos que rezam e sempre rezaram,

mãos que se elevam num gesto profundo,

é dessas mãos que precisa o mundo."

Rudolf Steiner

12 de maio de 2015

'Co(n)-Viver'

Krishna e os Gopas


Conviver rima com ar, com ir e com er.

Se entregar, confiar
Se sacrificar, não julgar
Esperar.

Ouvir, sentir, refletir
Deixar fluir.

Ceder, receber
Não temer,
E enfim, crer.

Simbora conviver!


Marcelo Gomes

"Saiba que sempre terá sede aquele que não quer ser uma fonte." J.C.

8 de março de 2012

Com licença poética - Adélia Prado



Com licença Poética
 "Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou."


 
Adélia Prado
(imagem: Tresa Sousa)



31 de julho de 2011

"Eu sei, mas não devia" (texto de Marina Colassanti)



"Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

Marina Colassanti
(fonte: site "releituras")

imagem: Irisz Agocs

25 de julho de 2011

Família não é uma empresa... (texto de Fabrício Carpinejar)

Família não é uma empresa ou como catar coquinhos

(texto de Fabrício Carpinejar)

"Estava na mesa-redonda da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Ouvi atentamente a palestra de Içami Tiba, colega de painel, que falou de modo elétrico, seguro e convincente. É um orador no estilo de grande auditório, conciliando humor com exemplos. Mas, em algum momento, ele disse: “A família é como uma empresa”. E aquilo me incomodou profundamente. Aquilo me arrancou a audição. “É na família que forjamos vencedores. Se os filhos não obedecem, não fazem nada, tem preguiça para qualquer coisa, não ficariam numa empresa, é o mesmo processo.” Caso meu avô Leônida escutasse isso, soltaria um de seus xingamentos prediletos: "Vai catar coquinho e deixar de ser besta". A família não é uma empresa. Nem deve ser. Não vou demitir ninguém em casa. O pai ou a mãe não é o que queremos deles, mas o que eles podem oferecer. Estou de saco cheio de ouvir que uma família deve trazer rentabilidade, organização e competência. A cobrança não fixa um lar. Na minha residência, cada um tinha uma tarefa. Mas não era uma empresa, ou uma cooperativa. Não fui promovido. Não esperava cargos de confiança. Os irmãos me continuavam. Quando fui demitido uma vez do serviço, expliquei para minha filha de 4 anos o que havia acontecido. “O trabalho não me quis mais.” Ela respondeu bem calma: “São bobos, fique calmo, será meu pai sempre.” Eu dependo de um lugar para falir na minha vida. Deixe-me ao menos a família. Eu posso perder tudo, menos a família. A família é meu despertencimento, a adoração dos telhados, o avental no gancho da cozinha. Nem Deus, nem seus capatazes tiram aquilo que foi desejo. Podem subtrair minha memória, mas guardarei o desejo fora de mim. Em minha mulher. A família é o único lugar que continuaremos vivendo sem a expectativa de acertar. Mente-se diante da agenda, não de um prato de comida. Precisamos de um espaço para falir, para errar e se debruçar em nossas fraquezas. Já tenho que ser funcional no emprego, no lazer, nas relações com os outros. E agora a sugestão é que trabalhemos também na família. Isso é exploração infantil, isso é jornada dupla, isso é transformar elos naturais em conexões automáticas. A família depende de uma única coisa: a intimidade. E intimidade não é emprestada, intimidade é não pedir de volta. A família é o único lugar que me permite ser verdadeiro. É o único reduto de autenticidade. Não vamos colocar a competição dentro dela. Ou encher os nossos filhos de horários e de obrigações para que não pensem bobagens. Eles carecem das bobagens para escolher seus caminhos. Ser ocupado não nos torna importantes; não nos torna responsáveis. Envelhecer é se desocupar para a amizade. Quando pequeno, não fiz natação, não fiz inglês, não fiz informática, não fiz o raio-que-parta. Eu tinha o tempo livre depois da escola e jogava futebol com os colegas, roubava frutas e brincava na casa dos vizinhos. Voltava para a casa quando a mãe gritava: “tá na mesa!”. A infância é própria para a vadiagem. Quando iremos vadiar de novo? Se a família é uma empresa, um dia os filhos vão pedir demissão, um dia o pai e a mãe vão se aposentar, um dia os tios vão pedir concordata, um dia o genro vai desviar recursos. Na família, os laços são eternos e não provisórios como uma empresa. Família não é trabalho, família é experiência. E nunca haverá perdedores na família, mas irmãos e filhos e pais. Eles são a família, não um referencial de realização. Essa exigência de sucesso na família implica em não aceitar os perdedores. O que são os perdedores senão os mais sensíveis à pressão? Por isso, famílias se assustam com os problemas e escondem filhos alcoólatras, drogados e doentes em clínicas. Sofrem com a cobrança pública. Temem a exposição de seus defeitos. Família é ter defeitos, é ter fantasmas, é ter traumas. Frustração é não contar com uma família para se frustrar. Família é compreensão, não um acordo. Não temos que alimentar vergonhas de nossas vergonhas. Família é onde tiramos os sapatos e deitamos os casacos. Não promoverei reunião-almoço na minha sala. Não afastarei um parente pela malversação. Não solicitarei a restituição das mesadas. Não exigirei que minha filha escolha Medicina ou Direito pela estabilidade. Não condiciono minha paixão a resultados. Um patrão nunca será um pai. Não procuro disciplinar meus filhos, o amor é a mais suave disciplina. E o abraço é a minha desordem."

Fabrício Carpinejar


(imagem: Patrícia Metola)

18 de junho de 2011

Quando a poesia surge?

Poesia


Quando a poesia surge,
a cabeça fervilha em imagens.
Revivemos os fatos, os sentimentos brotam,
E as palavras vão aparecendo.
Quando fazemos poesia,
compomos com os conteúdos de passado.
Analisamos no presente.
Edificamos o futuro.


Quando fazemos poesia,
A nossa alma chora ou ri.
Os pensamentos vão se esclarecendo.
A vontade se concretizando.
Quando fazemos poesia,
elaboramos a crítica ou homenagem,
alertamos ou elevamos o homem.
Às vezes os conteúdos são claros,
outras vezes, os conteúdos são tão confusos.
Há tantas cores, imagens e sentimento,
na nossa alma e no pensamento.
Que torna difícil as palavras saírem,
em forma de rimas e versos.


Então eu me pergunto:
De onde provem tanto movimento e velocidade.
Se aqui estou parado, na minha individualidade?

Colaboração de Jane (moradora do Condomínio Alvorada!)

12 de junho de 2011

Um pouco de poesia (e feliz dia dos namorados)




" O DIA DOS NAMORADOS

O dia dos namorados
para mim é todo dia.
Não tenho dias marcados
para te amar noite e dia.

O dia 12 de junho,
como qualquer outro, diz
(e disso dou testemunho)
que contigo sou feliz. "

Carlos Drummond de Andrade
(imagem: Mariana Massarani )
Poema e imagem retirados do livro "Declaração de Amor - Canção de Namorados", Carlos Drummond de Andrade, Editora Record,  5a edição, 2007

5 de junho de 2011

Carta da Terra ao Homem no Dia Mundial do Meio Ambiente


Homem,

Ouve o compasso do meu coração que te alimenta e agora sofre.Liberta-te da cega e alucinada ilusão que te faz dissociar do meu ser que integras de corpo e alma.

Não te enganes pela arrogância que te faz esquecer que sou teu campo de cultivo, belo, amplo, e fértil. Terra prometida, mas sob a condição da semeadura de nobres idéias, sentimentos e ações.

Abre o teu espírito à minha sabedoria: Minhas pedras te ensinarão o segredo do ciclo do sacrifício que se desfaz e recria.
As plantas, a harmonia do convívio criativo e a calma auto suficiente que frutifica. E os animais, a corajosa aventura de viver em plenitude o sentir e fruir da dinâmica dos elementos.

Desde sempre és, e por muito tempo ainda serás, devedor desses reinos, e só lhes retribuirás toda doação, quando cumprires tua missão de semeador de um novo mundo.
Teu espírito é o do Criador! Assume isso como dádiva, e responsabiliza-te pela utilização criteriosa da pequena mão cheia de poder que dispões, mantendo  teu coração no presente e lançando tua consciência no futuro. Não uses desta liberdade para empobrecer, intoxicar, e provocar horrendas e irrecuperáveis feridas.

A cada novo alvorecer, com as forças que encontro na esperança da
colheita, busco por renovação e um novo ponto de equilíbrio e
sustentação. Mas agora já cambaleio com teus violentos e repetidos golpes, e o muro frio do teu desvario, insensível ao sofrimento causado a tantos seres que te acompanham, isola-me cada vez mais de ti.

Como mãe generosa, ainda outra vez clamo: O tempo urge, ajuda-me!
Bem sei que esse é um plantio lento e trabalhoso. E para que o nosso precioso fruto cósmico venha um dia a amadurecer, não endureças o coração e não esmoreças nas tuas ações... E que assim, Deus possa continuar a te agraciar, iluminando-te o caminho.

Terra.

(Texto de Eduarda Mendes)

3 de junho de 2011

Túmulo ou Templo?


Homem Vitruviano

Que corpo é esse que guarda tantos segredos?
Aperfeiçoado  durante milhares de anos.
Que hora me aperta comprime e sufoca,
ou então se esvazia  e me deprime.

Corpo sagrado edificado com todos os sinais
que se sentido e entendido leva-nos
a escrituras, guiando-nos como tabuletas,
aos mistérios de todas as criaturas.

Como me trato, alimento e me permeio,
 vou transformando-o em diversas possibilidades.
Conservando-o como túmulo da Alma,
ou edificando-o  em Templo das Divindades.

Jane

(colaboradora que é moradora do Condomínio Alvorada)

7 de abril de 2011

Dignidade

Colaboração de Jane, moradora do condomínio Alvorada!


C.Portinari:“O Lavrador de Café” (1939)


Dignidade


Vivemos numa sociedade,
Posição, status ainda tem muito valor.
O que enobrece o homem,
Não é a sua titulação ou função.


O que dignifica a vida,
É a forma como ela é vivida.
Cada qual em seu labor,
Desempenhando com devoção e amor.


É chegada a hora, de superarmos as dificuldades,
Submissão, depressão, agressividade...
Sublimarmos em dignidade,
Elevando-nos à liberdade e felicidade.


A vida é muito rápida,
Comparada com a eternidade.
Como se fosse um mergulho,
Dentro da efemeridade.


Jane

31 de março de 2011

Hipocrisia

Contribuição da Jane, moradora do Condomínio Alvorada.


Hipocrisia

É mentir para si mesmo,
Viver de meia verdade.
Pensar que levou vantagem,
Não assumir a responsabilidade.
Manifestar com ironia,
A seriedade da vida.

Quando e onde haverá a comunhão,
De almas, idéias e ideais?
Convivendo em união,
Com  íntegra cidadania.

Jane

23 de março de 2011

Colaboradora do Blog e moradora do bairro é premiada por poesia publicada aqui !

Jane (moradora do Alvorada) foi contemplada de participar do livro Poesias Encantadas com sua poesia “Preconceito”.
Parabéns cara vizinha, estamos todos muito felizes por você!




Preconceito


Fala-se tanto em preconceito,

Mas, o que realmente quer dizer?

Pré-conceito: vem de ti,

Ou do meu próprio ser?



Todos nós podemos ser enganados,

Pelos sentidos aprisionados.

Ao invés de vermos a real-unidade,

Percebemos só as extremidades.



Tudo e todos, somos, diferentes,

Conforme a nossa excepcionalidade.

Mas mesmo nessa multiplicidade,

É possível encontrar uma só verdade.


Jane

8 de março de 2011

Mulher moderna

Reflexão de Jane, moradora do Condomínio Alvorada.

Mulher moderna


Jane servindo um delicioso bolo.
Mulher  que atualmente ocupa muitos cargos,
Que na correria pretende dar aos entes queridos,
Tudo que talvez não teve e algo mais.
Neste teu dia reconsidere os fatos,
Reconheça que o pouco que recebeste,
Foi muito, a base do teu sucesso,
Das tuas conquistas e do teu espaço.
Não se deixe levar pela falta de tempo,
Cultive a alegria nos teus  afazeres do dia a dia.
Não se iluda na vontade do querer dar muito,
Esquecendo do essencial.
Você, mulher, mãe, filha, irmã e  amiga,
Encontre mais tempo e espaço,
Para os entes queridos que estão em tua volta.
Principalmente para você mulher que é o esteio da humanidade,
E se você estiver bem, todos  ao seu redor encontrarão a felicidade,
Só assim poderemos reconstruir a sociedade.

Jane

4 de março de 2011

A Lei do Retorno

Colaborção de Jane, moradora do Condomínio Alvorada.



Diz o Ditado

“O diabo tenta, mas não faz”.

Quem atua é o próprio homem.


“Verde de raiva”.

A raiva tem cor e sabor,

Que o homem sente no paladar,

Na vida, por se revoltar.


“Comi o pão que o diabo amassou”.

Com o agrotóxico,

O homem a terra estragou,

O transgênico plantou,

E agora se envenenou.


“Quem com ferro fere, com ferro é ferido”.

Tudo o que produzimos,

Os efeitos vão se expandindo,

Com uma velocidade, imensurável.

Mesmo sem percebermos,

Retornam com uma intensidade multiplicável.


Jane

27 de fevereiro de 2011

Homenagem aos 150 anos de nascimento de Rudolf Steiner



Colaboração de Jane, moradora do condomínio Alvorada.

“O Vir a Perceber da Idéia na Realidade é a verdadeira Comunhão do Homem.”

Diante dessa visão profunda e extensa, só posso dizer com toda veneração, obrigada,Dr. Rudolf Steiner.A humanidade, sim um dia reconhecerá com certeza, a importância fundamental para o equilíbrio terrestre do tripé: Religião, Ciência e Arte, em que o homem terá que se fortificar.
Hoje manifesto a minha homenagem, num singelo poema:

Evolução

Com a prática religiosa,
Cultivamos a cienteza moral.
Através do conhecimento científico,
Edificamos a inteligência estrutural.
Na arte,encontramos a consciência
E linguagem universal.

Assim desenvolve o homem,
Sentindo , per vendo e afeiçoando,
O bom em si e no próximo.
O verdadeiro , em seu pensar individual.
O belo em todo o seu ser social.

Jane

25 de fevereiro de 2011

Distorções ideológicas

Uma crônica afiada da Ana, moradora do condomínio Verbena e professora do Quintaventura:

Tive um professor querido de História, muitos anos atrás, que me explicou de forma exemplar o que é ideologia. Ideologia, dizia ele, é o seguinte: você passa muitos e muitos anos (por exemplo) odiando ler, repudiando tudo o que seja matéria impressa; num certo momento, percebe a importância da leitura, e passa entusiasmado ao estatuto de leitor contumaz. Porém, o mundo lá fora, que tudo observa, permanece com o você antigo, aquele que não gostava de ler, e por mais que você diga, prove, leia!, nada convence ninguém de que você mudou, que as coisas mudaram, que agora não só você reconhece o valor e o prazer de ler, mas lê o dia inteiro. Ideologia é isso: a permanência de uma determinada forma de pensar a respeito de uma realidade que,entretanto, já mudou e não é a mesma. Hoje eu sei que ele se apoiou nas reflexões de Marilena Chauí, mas na altura essa explicação me cativou.

O pensamento ideológico tem uma missão importante, ainda que inconsciente: convencer o resto do mundo que a mudança não aconteceu. O pensamento ideológico sai às ruas enérgico para comprovar, constatar, convencer e provar o que lhe parece óbvio: você não lê e não gosta de ler. Os fins, aqui, justificam os meios, e por isso a liberdade é irrestrita para camuflar, distorcer, omitir ou corroer fatos e informações. Vale tudo, porque há uma missão em jogo, há uma luta em campo que não é racional, mas absolutamente passional. O ser humano tem problemas com a desacomodação e a mudança – por isso, mais fácil garantir que nada mudou e que podemos continuar reclamando, eternamente, das mesmas coisas. Ainda que não existam mais. A sorte é que, como agora você gosta e lê, sabe disso e não se incomoda tanto. Até entende, quem sabe se magnânimo...

Os caminhos do pensamento ideológico são muitos, e todos estamos à sua mercê. O email que circula há algum tempo pela internet, com uma redação de uma aluna da UFRJ, pretensa ganhadora de um prêmio concedido pela UNESCO entre outros 50000 estudantes, é uma prova fantástica deste assunto. Ora vejam:

O email em questão conta que Clarice-alguma-coisa, aluna do último ano do curso de Direito da UFRJ, ganhou um prêmio concedido pela UNESCO, pela sua redação sobre o fim da pobreza e da desigualdade. Segue-se o email com o texto na íntegra, e ao final solicita-se que se encaminhe adiante, e assim “aos poucos vamos acordar este Brasil!”

Convém saber que o texto da estudante não ganhou o concurso, mas foi selecionado, com outros 100 textos, para integrar uma publicação da Folha Dirigida em parceria com a UNESCO (ou vice-versa, para não me acusarem de distorção!). Foram 42.000 estudantes, e todos eles brasileiros universitários, porque o concurso, que dá a impressão de ser mundial, aconteceu apenas no Brasil. A publicação tem a data de 2006-2007, e está disponível no site http://unesdoc.unesco.org/images/0015/001576/157625m.pdf.

A intenção da UNESCO não foi destacar o bom uso da língua, a clareza na exposição das ideias, a articulação equilibrada, a coesão trabalhada. Talvez, se fosse, a estudante de 26 anos tivesse uma nota razoável, apesar de não ser um texto exemplar e de, dependendo do ponto de vista, ter as qualidades necessárias a uma prova de ingresso à universidade e não as que se presumem necessárias a uma já-quase advogada.

A intenção foi justamente dar relevância a boas ideias que combatam e a pobreza e a desigualdade, conforme reza o título da publicação, e não a habilidade para “construir belas frases com palavras simples”, como elogia anonimamente quem coloca o texto em circulação. É claro que vemos e percebemos da realidade aquilo que a nossa percepção e história pessoal informa; é claro que a pluralidade de opiniões é a garantia da nossa democracia. Mas choca-me que a UNESCO consiga entender representativas da realidade brasileira as ideias expressas pela estudante, por muito irrepreensível (e não é) que seja seu texto. Se ainda penso que é uma aluna de último ano de Direito, mais me espanta e incomoda. E quando vejo que é aluna de uma universidade federal, pior ainda.

"Abundância de falta de solidariedade" e "exagero de falta de caráter" (para não passar do primeiro parágrafo) são expressões fortes demais para caracterizar um país onde precisamos de muitos e muitos dedos de muitas mãos para contar exemplos justamente do contrário. Eu sei (e por isso aquela introdução no início deste texto) que dificilmente se constrói um discurso ideologicamente livre, mas há limites, e uma estudante de último ano de Direito deveria ter construído, ao longo do seu tempo de estudo, a capacidade de olhar em volta com os olhos abertos. Seu texto está repleto de lugares comuns e chavões como aqueles que ouvimos repetidamente, que elegem o Tiririca como exemplo acabado do congresso que acaba de ser eleito, ignorando os tantos e tantos deputados capazes e honestos que povoam a Câmara. Joga-se o bebê, a água do banho e a própria bacia. Bastante fácil levantar bandeira por revoluções e reformas estruturais, sem perceber as que estão em curso, e que permitiram, inclusive, que a autora do texto chegasse a seu último ano de um curso de Direito do calibre do curso da UFRJ, "vítima" dos investimentos fantásticos que o Governo Federal fez nos últimos 8 anos no ensino superior público.

O texto de Clarice tem, no entanto, um aspecto positivo, e a sua circulação irrestrita e distorcida pela internet idem: são bons exemplos do que é preciso fazer com textos lidos no ambiente virtual. Por um lado, desconfiar, a partir do exercício do pensamento crítico e da análise da realidade, da veracidade dos fatos que veiculam, confrontá-los e confirmá-los buscando outras fontes; por outro, descobrir a imensa riqueza democrática que esse mesmo espaço virtual carrega em si, acessível por caminhos que lhe são próprios e peculiares e que precisam ser aprendidos e explorados nos últimos anos da educação básica, justamente porque são isso mesmo: básicos. As nossas salas de aula estão repletas de alunos que usam a internet e o universo virtual diariamente, de forma limitada mas muito intensa. Faltam-lhes recursos que lhes permitam dominar as ferramentas de pesquisa, faltam-lhes capacidades para poderem encontrar, nessa gigantesca caixa de Pandora, aquilo que necessitam e aquilo que ainda nem sabem que existe. Quem sabe possamos contribuir para que as próximas gerações de alunos da UFRJ consigam desenvolver textos mais articulados, maduros, reflexivos, inteligentes e bem escritos. O lucro será de todos.

21 de fevereiro de 2011

Dramaturgia

Colaboração de Jane, moradora do condomínio Alvorada.


Assim sintetiza a evolução:

Com os gregos o ressoar através da máscara-persona.

Na idade média os dramas do cotidiano.

Com Shakespeare os conflitos pessoais internos.

Goethe surge com os conteúdos de humanidade.

Rudolf Steiner com os mistérios- dramas.

E nós o que elaboraremos para a evolução?

Ou restou, a transformação interior e exterior do conteúdo elaborado,

Como ser cidadão:Cidade+adão
Jane

30 de janeiro de 2011

Via Láctea!

Colaboração de Jane, moradora do Alvorada.

Foto de Tafreshi


Via  Láctea
             
Céu luzente como uma chuva de prata.
Chão florindo, emergindo toda a energia terra.
Que mais posso desejar?
Com  toda essa beleza a me falar?
Sentir o respirar Cósmico,
Que exala através   das plantas,
Retornando como um reflexo
De mil luzes a brilhar.
Assim são as noites em Botucatu,
Onde posso vivenciar,
Todo esse caminho de luz no céu,
Cruzando o meu lar.

    Jane 

26 de janeiro de 2011

Quem resiste a um poema de amor?

















Não me analise

"Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor."
Mário Quintana
(imagem daqui)

____________________________________________________________________
Eu não resisto.
E certamente aparecerão muitos por aqui.
Contribuições são muito bem-vindas!
(Quem se habilita?)

13 de janeiro de 2011

Tragédia no Rio de Janeiro




Dois leitores do Blog nos enviaram poemas em solidariedade ao sofrimento dos habitantes das cidades serranas do Rio de Janeiro frente aos deslizamentos de suas encostas e enchentes furiosas dos últimos dias.




Pras almas que foram levadas
Pelo braço forte da chuva
O poeta hoje se curva
Tendo suas mãos lavadas
Que a brisa das madrugadas
Serenas do ano inteiro
Sobre o Rio de Janeiro
Sopre para consolar
Até o choro desaguar
Num calmo Mar de Fevereiro!

Seu Ribeiro






Crise


Neste momento, terra e homem,

Manifestam o sofrimento e não dormem.

Com todo o sistema sanguíneo alterado,

Transformando toda força do circulatório,

Em fúria, catástrofes e mortes.



É chegada à hora de repensarmos,

Nos princípios que herdamos e negamos,

Veneração e respeito, a tudo que amamos.

Cuidarmos da terra, rios florestas e mares,

Principalmente do homem a evitar tais males.


Tomar uma decisão, precisamos,

Enxergar a crise, em que nos encontramos.

Cultivando socialmente o amor,

Conseguiremos acabar com a dor,

Reorganizando o templo que habitamos.

Jane